Para o diretor, dramaturgo e pedagogo teatral, William Costa Lima, “o momento não é de tentar buscar respostas para o futuro do teatro e sim de, no máximo, tentar manter o teatro e as outras artes cênicas vivas na cabeça das pessoas, nem que seja como uma ideia. Uma ideia profundamente relacionada à vida. Uma ideia que para ser retomada na prática de sua potência de encontro presencial e coletivo, depende sim do anuncio de uma cura para esse vírus que nos assola”.

William também afirma que “mais do que forçar a produção criativa de um artista em tempos de pandemia, ou ficar incentivando de maneira nada verossímil uma supérflua ideia de reinvenção, as instituições públicas e privadas deveriam se comprometer primeiro com o estado psicológico dos artistas garantindo alguma espécie de auxílio financeiro”.

Enquanto isso, o diretor e parte de sua trupe Teatro de Torneado tentam pensar possibilidades de contribuir para que as pessoas reflitam essa importância do teatro e, quando uma retomada for possível, frequentem o teatro de maneira até mais assídua do que a que estava acontecendo antes da pandemia ser anunciada.

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Lembrando que antes da pandemia acontecer, além de um importante projeto de formação de público na cidade de Ribeirão Pires, no Grande ABC Paulista, com o ousado projeto do Sítio Cultural Alsácia, e o início de uma primeira turma da sua escola técnica de formação em artes-cênicas, a Escola Atemporal de Artes, em parceria com a prefeitura da cidade de Ribeirão Pires e há sete meses a trupe realizava uma belíssima ocupação artística no antes abandonado Teatro Municipal Euclides Menato.

Mesmo com todas as dificuldades de se produzir cultura no Brasil, a trupe buscou uma consonância possível com o poder público e passou a ser uma grande colaboradora da programação cultural da Secretaria de Cultura da cidade e na manutenção de um patrimônio cultural da cidade. Além disso, através de contemplações no edital PROAC, ela estava no caminho de construir algo que somente a continuidade de uma pesquisa estética permite: a formação de público.

Um desses exemplos foi a temporada da comédia social “Incandescente”, que realizou 26 apresentações e trouxe mais de 3.000 expectadores ao teatro. A trupe estava prestes a estrear uma importante temporada do seu espetáculo infantil “Clara cor de um silêncio azul”, no qual faria um intenso projeto de formação de público com as escolas públicas da cidade.

Outras programações articuladas pela trupe trariam importantes artistas para o teatro municipal da cidade, como o premiado e importante espetáculo “Buraquinho ou o vento é inimigo do picumã”, escrito por Jhonny Salaberg e dirigido por Naruna Costa e o sensível solo de Rodolfo Amorim, “Galo Índio” com direção de Antônio Januzelli e tantas outras programações agora com destino incerto dentro da programação desse Teatro Municipal que renascia.

Para os artistas da trupe, se o momento é de suspensão, é preciso entender o que está suspenso e manter algum canal de relação com os espectadores e quem sabe até aguçar a curiosidade de novos espectadores e para isso eles reformularam completamente sua plataforma digital, Torneado em Rede. E será nessa plataforma e no seu canal no Youtube onde irão disponibilizar conteúdos como as filmagens com legenda de alguns espetáculos do grupo, entrevistas, documentários e até mesmo a publicação de algumas dramaturgias.

Marcando a estreia desse conteúdo, a trupe irá liberar um material atípico e não oficial de sua trajetória, produzido por parte dos integrantes que compunham a trupe no ano de 2013: um filme. O média-metragem “O silêncio não está morto, querida vó Helena” foi escrito e dirigido por William Costa Lima, com assistência de arte de Aguida Aguiar e tem no elenco a atriz Iná de Carvalho, Beatriz Barros e Bruno Lourenço. O filme fala sobre o amadurecimento da relação entre Samanta, uma jovem estudante de arquitetura prestes a se formar, e sua avó Helena, uma vendedora de antiguidades prestes a se aposentar.

O filme, foi vencedor do concurso nacional de roteiros Filma Brasil 2013, que tinha como tema a sustentabilidade, foi exibido pouquíssimas vezes. Mesmo assim, chegou a ganhar prêmios no Festival Nóia do Ceará e também os prêmios de melhor trilha sonora e melhor atriz para Iná de Carvalho no FESTIN Portugal em 2015. Embora trata-se de uma Trupe de Teatro, houve um grande engajamento por parte dos jovens que integravam a trupe para que a produção do filme acontecesse.

A liberação desse conteúdo acontecerá todos os domingos às 15h na plataforma que hospeda o conjunto de ações que formam o Torneado em Rede e irá durar aproximadamente dois meses. Somente quando um novo estado de normalidade estiver vigente e indicado pela OMS, a Trupe irá pensar na produção de novos conteúdos que dialoguem com novas realidades. Mas, por enquanto, a Trupe e seus integrantes preferem acreditar que uma espécie de cura será anunciada e o teatro voltará a sua potência de encontro presencial e que para o momento, ações como essa podem ajudar a manter a chama do teatro acesa.

Para Mayara Sobral, atriz e historiadora do grupo, também é uma maneira da trupe organizar seu material sob a ótica da historicidade, cumprindo um antigo desejo de que essa história escrita pelo sacrifício de tantos jovens, não passe desapercebida, como tem acontecido com tantas histórias que nasceram de um teatro amador e jovem.

Por fim, William encerra dizendo que: “se não sabemos o que será do futuro do teatro e até mesmo do futuro de nossa trupe, esse nosso passado tão desapercebido por tantos, agora nos dá a oportunidade de nos mantermos vivos: como artistas e como ideia de um Teatro entre tantos Teatros Ideias que existem por aí”.

Lançamento do conteúdo: 17/05 (domingo às 15h).
Periodicidade de lançamento do conteúdo: sempre aos domingos às 15h
Onde: www.torneadoemrede.com
Acesso: gratuito