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“O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

(João Guimarães Rosa)

Se me perguntassem qual é a parte do corpo de uma pessoa que mais me chama a atenção, responderia automaticamente: os olhos!

Desde pequena tenho forte atração por olhos. Não me refiro apenas à cor, ao tamanho, ou qualquer característica física.  Me refiro ao que está por trás deles:  um jeito diferente de olhar, de movimentar as pálpebras, de apertá-las ao sorrir ou ao expulsar uma lágrima.

Alguns olhos, inclusive, me acompanham desde pequena. Por exemplo: os olhos profundos e pesados da atriz italiana Ana Magnani, comoventes de Charlie Chaplin, arteiros e vivos de Bibi Ferreira, talentosos e melancólicos de Cacilda Becker, magnéticos e fatais de Bette Davis…

É claro que nessa extensa lista não constam apenas os olhos de atores e atrizes que admiro. Mas, de alguma forma, foi através dos deles que enxerguei o Teatro pela primeira vez. E digo mais: foi por causa deles que me apaixonei pelo ofício de atriz.

Sempre me perguntei que beleza misteriosa é essa que se esconde atrás dos olhares de alguns artistas. Talvez isso se deva ao fato de serem guardiões de um universo sagrado, repleto de almas dionisíacas, personagens vividos, artistas mambembes – malabaristas, palhaços, músicos – que, no seu mundo interior, ainda viajam em carroças passando chapéus. Universo repleto de almas de bufões que dançam com anjos e os vestem com os mais variados tipos de figurinos, de diferentes épocas. Almas de clowns que dormem inocentes em amontoados pedaços de tecidos, num cenário qualquer.

Um desses guardiões do universo sagrado do Teatro e que, segundo a frase de Guimarães Rosa, se encantou na última quarta-feira (27), chamava-se Umberto Magnani.
Seus olhos serenos e gentis sempre me tocaram. Atrás do azul, do brilho molhado, feito um céu recém-amanhecido, um portal para um mundo encantado, o ator reunia uma legião de almas de personagens saídos de obras de autores como Nelson Rodrigues, Lauro César Muniz, Jorge Andrade, Plínio Marcos, Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Timochenco Wehbi, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Sílvio de Abreu e Rubens e Edwald Filho. Só em cinema, teatro e televisão, foram mais de quarenta personagens vividos.

Me lembro de ouvi-lo dizer numa entrevista dada há pouco tempo atrás que a sua maior preocupação como ator era, não apenas entreter, mas levar conhecimento ao público. Seus olhos brilhavam especialmente naquele dia. Ninguém imaginava que aquele céu anoiteceria tão rápido e fecharia seu portal de vez.

Mas não devemos nos preocupar com isso. Em céus como o dele, estrelas permanecem brilhando eternamente.

Quanto ao próprio Magnani, continuará a viver, interpretar e vestir os mais variados tipos de figurinos e a, quem sabe, dormir inocente num cenário qualquer, dentro do universo de atores e atrizes que jamais o esquecerão. Talvez seja essa uma das melhores maneiras de mantê-lo encantado!

“O que eu tô achando é que nem todas as novelas têm alma. As antigas tinham. E é isso que falta muito, a alma. Eu não sei se é a influência do lado ruim do computador. Tem muitas cenas que parece que foi o computador que escreveu, ele que bolou (…) Quando eu vim de Santa Cruz do Rio Pardo, minha cidade, pra São Paulo, vim pra fazer uma escola de arte dramática. Eu vim pra ser ator, não me passava pela cabeça ser famoso. É claro que eu queria ser bem sucedido, mas em primeiro lugar era ser ator. E hoje parece que priorizam mais ser famoso. E talvez uma das profissões mais difíceis do mundo pra continuar é ser ator, porque não dá pra enganar.”

Umberto Magnani

1941-2016

Foto: Divulgação
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