O outro lado do autismo

No início deste mês, uma mulher fez um grande desabafo nas redes sociais falando sobre a complicada realidade dos familiares de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). As palavras ditas pela mãe de jovens com TEA ocorreram neste mês de Abril, justamente o “Mês Internacional do Autismo”.

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A fala serviu para mostrar como vivem os familiares e as pessoas que possuem o transtorno, deixando de lado a impressão que as notícias veiculadas na mídia deixam, onde faz parecer que tudo é muito simples e fácil.

“As histórias de autistas de alto rendimento publicadas pela imprensa ajudam a consolidar, perante a população, percepções equivocadas em relação ao transtorno do espectro autista”, lamenta o presidente da Apraespi, José Feliciano.

Segundo ele, é preciso que a sociedade e os governantes percebam que essas famílias precisam de tanto apoio quanto seus próprios filhos autistas, com políticas públicas que atendam suas mais específicas necessidades.

A Organização Mundial da Saúde calcula que o autismo afeta uma em cada 160 crianças no mundo. A condição chamada de transtorno do espectro autista geralmente tem início na infância e persiste durante a adolescência e vida adulta.

No Centro de Autismo da Apraespi não faltam relatos de famílias que enfrentaram grandes dificuldades para criar o filho com TEA. É o caso de Rebeca Becker, mãe de três meninos com autismo. Os dois mais velhos já são alunos da Apraespi, enquanto o caçula ainda está em fase de avaliação.

“É uma longa história com muitas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas pois não é fácil viver constantemente com o autismo todos os dias. Vivemos um dia de cada vez, entre graus de autismos diferentes,  rotinas e uma dose de cansaço. De fácil o autismo não tem nada, tem que ter muita força e muita garra para enfrentar todos os problemas que vêm após o diagnostico fechado, os altos e baixos são  frequentes em nossas vidas”, conta a mãe.

Até mesmo nos casos mais graves, é possível atingir algum grau de melhora com tratamento adequado.

“Posso afirmar que todas as crianças e jovens com TEA saíram da Apraespi melhores do que entraram. Com atendimento especializado, sempre é possível registrar avanços”, garante a coordenadora da unidade, Elisabete Fernandes.

Foi o que aconteceu com os filhos de Rebeca. Gabryel, o mais velho, levou seis anos para estabelecer o primeiro contato afetivo com os pais e hoje é considerado uma criança muito carinhosa. Raphael, o filho do meio, levou quatro anos para dizer as primeiras.

O caçula Miguel vai iniciar sua trajetória na Apraespi e a expectativa da família Becker é que o menino trilhe a mesma trajetória de superação pela qual passaram seus dois irmãos.

“A Apraespi nos transformou, tenho o costume de dizer que ali existem soldados de transformação porque eles não mudam só a vida da criança, mas mudam a família inteira trazendo um novo conceito de felicidade.”

Confiram o desabafo feito por uma mãe de crianças com TEA que acabou viralizando nas redes sociais:

“Será que estamos mesmo conscientizados? Será que veremos o autismo que não é azul, nem bonito e de autofuncionamento? O autismo agressivo, com gritos e agressões? Precisamos falar e mostrar que nossos filhos e famílias vivem isoladas da sociedade porque não somos aceitos e compreendidos. Que, principalmente nós, mães, abrimos mão de nossas vidas, relações sociais, empregos para cuidarmos e defendermos nossos filhos da sociedade. Para cada menino que toca piano aos 6 anos, 20 ou mais se automutilam ou agridem o próximo. E nunca serão alfabetizados, por mais que as famílias se esforcem e tenham condições de utilizar os recursos que existem e que são de custo elevadíssimos. Esse é o autismo que precisa, urgentemente, aparecer nos meios de comunicação para que sejam criadas formas efetivas de ajuda para que possamos deixar de ver a vida passar pela janela de casa e, ao contrário, possamos ver nossos filhos efetivamente inseridos na sociedade.”