De acordo com o MP-SP, as mensagens foram enviadas durante os 12 dias em que o ex-auditor esteve em liberdade, período em que teria orientado outros investigados mesmo proibido pela Justiça de manter contato com eles.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Segundo o Ministério Público, Artur teria usado o telefone de Francisco de Carvalho Neto para se comunicar com um advogado e encaminhar cartas destinadas a antigos colegas da Secretaria da Fazenda e a operadores do suposto esquema de corrupção. O aparelho foi apreendido em 10 de junho, na residência onde o casal morava, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo.
Os promotores afirmam que o ex-auditor, apontado como o “cérebro” da organização criminosa, movimentou mais de R$ 1 bilhão em propinas por meio de um esquema de ressarcimentos tributários supostamente fraudados para grandes empresas do varejo e do atacado.
Cartas orientavam investigados
De acordo com a investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos (Gedec), Artur permaneceu em liberdade entre os dias 29 de maio e 10 de junho, período em que, mesmo proibido pela Justiça de manter contato com outros investigados, teria enviado mensagens e cartas orientando os envolvidos.
Entre os materiais apreendidos estavam cartas manuscritas. A perícia encontrou, no celular de Francisco, fotografias dos mesmos documentos, reforçando a suspeita de que o aparelho era utilizado pelo ex-auditor.
Nas mensagens, Artur teria orientado os destinatários a não firmarem acordos de colaboração premiada e apresentado estratégias para manter ocultas criptomoedas avaliadas em mais de R$ 100 milhões.
“Nós vamos anular tudo”
Uma das mensagens, intitulada “Carta para Nina”, teria sido enviada em 4 de junho ao advogado Lucas Nascimento da Costa, que, segundo o MP-SP, atuava como intermediário entre Artur e os demais investigados.
O documento era destinado à contadora Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, conhecida como “Nina”, apontada como responsável pela estrutura de lavagem de dinheiro da organização criminosa.
Na carta, assinada por Artur, o ex-auditor escreveu:
“Nós vamos anular tudo. As três operações.”
A frase faz referência às operações Ícaro, Mágico de Oz e Fisco Paralelo, que investigam o esquema.
Para os promotores, a mensagem demonstra a intenção de interferir nas investigações e aliciar corréus.
Mensagem também foi enviada a fiscal investigado
Ainda na mesma noite, outra carta teria sido encaminhada ao agente fiscal Fernando Alves dos Santos, da Delegacia Regional Tributária de São Bernardo do Campo, também investigado.
No texto, Artur apresentava o advogado como seu representante:
“Esse que está aí falando com você é o Dr. Lucas. Um dos meus advogados.”
Segundo o Ministério Público, isso demonstra que as cartas não eram apenas rascunhos, mas comunicações efetivamente enviadas aos investigados por intermédio de terceiros.
Os promotores afirmam que o material era digitalizado e enviado pelo celular para evitar qualquer controle da administração penitenciária, permitindo que as mensagens fossem exibidas durante visitas reservadas sem deixar registros oficiais.
O Gedec classificou o procedimento como um “canal clandestino de comunicação” criado para burlar a decisão judicial que proibia o contato entre os investigados.
Tornozeleira eletrônica
Outro elemento apontado pelo MP-SP foi uma mensagem enviada pelo advogado em 5 de junho com orientações sobre o uso da tornozeleira eletrônica.
Para os investigadores, o conteúdo comprova que quem utilizava o aparelho era o próprio Artur, já que as instruções eram destinadas exclusivamente ao monitorado.
Além disso, a perícia identificou chamadas de vídeo entre os interlocutores com duração de quase sete e nove minutos.
Na avaliação dos promotores, as conversas demonstram o descumprimento deliberado das medidas cautelares impostas pela Justiça.
Defesa
Procurada, a defesa de Artur Gomes da Silva Neto informou que “reserva-se o direito de esclarecer as alegações exclusivamente nos autos, no momento processual adequado”. O advogado Lucas Nascimento da Costa também foi procurado, mas informou que não iria se manifestar.


